segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Embarque nesse carrossel.


Crianças têm muitas dúvidas, vivem enchendo os pais de perguntas.
Eu lembro de uma em especial que eu tinha e hoje acho muito criativa. Quem aprende uma língua estrangeira, será que depois de algum tempo falando ela, também a utiliza nos sonhos?...
Se sonhar já é difícil, imagina sonhar em mandarim.
Tá bom que eu viajava, mas acho uma dúvida legal e menos idiota do que as que tenho hoje.
Eu fui crescendo, crescendo (tá...eu não cresci muito.), cheguei na fase da menina-mulher. Fase tão horrível quanto esse nome, aliás, só se usa essa palavra em convite de festa de 15 anos....
Sei lá, no meu tempo se usava...
E hoje eu faço parte do fantástico mundo de gente-grande. Aquele em que minha mãe era a mais linda das mulheres e meu pai o melhor pai do mundo.
No mundo deles eu poderia ser livre, eternamente feliz, inteligente.
E iludida.
Nesse meu mundo passei a entender porque minha mãe calava minha perguntas dizendo que eu era muito criança pra entender certas coisas.
Mas hoje eu sei que ela não tinha a menor idéia sobre certas coisas.
Só que não havia ninguém naquele mundo dela que fosse maior. Não há ninguém no meu mundo maior que eu, que nós adultos.
Hoje depois de grande, não dá mais pra me convencer de que a vida é uma escola. Porque tem coisas, as mais importantes por sinal, que nunca se aprende.
Tem coisas que se morre velho sem saber.
Tem coisas que todos somos crianças demais para entender.
Ninguém sabe falar de cura pra saudade...ainda que digam que tal remédio seja o tempo. Tempo só serve pra envelhecer...e todos sabem que velhice pede mais remédio ainda.
Niguém sabe falar com propriedade sobre amor. Tudo que sabemos são apenas suposições, apenas idéias.
Sobre morte, sobre guerra, sobre saudade, sobre dor...todo mundo enrola.
Mas ninguém responde.
Culpam a cegonha, culpam o destino, culpam o Bush, culpam Deus, culpam a coluna... palpites, apenas.
Pra essas questões não existem títulos, nem experiências que tragam a resposta.
Mas isso não é mais problema no meu mundo. Aqui a gente finge.
E finge bem ser o dono da verdade, sem ao menos saber se verdades existem.
Afinal, nossas crianças precisam dormir tranquilas, sossegadas e esperançosas.
Precisam deitar acreditando que qualquer dia desses quando acordarem terão ciência de tudo.
Porque qualquer dia desses sem perceber elas acordarão fazendo parte do meu mundo, desse mundo de faz-de-conta que só gente grande sabe fazer.
E aí elas verão que aqui, tudo é de mentirinha.

Kamila V.



segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ele e ela.


Ela sentia o suor pelas costas.
As gotas procuravam em cada investida, caminhos diferentes e denunciavam o nervosismo na camisa branca.
Ela estalava os dedos, balançava as pernas, mudava a posição, folheava cega uma revista antiga.
Enxergava a demora pendurada no ponteiro.
Toneladas sobre as horas.
Havia anos que ela sonhava, imaginava, supunha, como seria aquele momento.
Como seria ele? Como seria seu rosto? Será que ele lembraria das coisas que ela havia dito até ali? Dos pedidos, das exigências, dos desabafos, dos desafios, dos erros, dos acertos?
Ela só sabia que estava preparada. Perfeita e impecável, ao menos na aparência.
Na frente dela, a porta. Após a porta, o desconhecido.
Quando ela se abriu, uma estatura mediana de aparência comum demais, surge do interior da sala branca.
Até aí, abaixo da expectativa.
Ela segue no seu salto e na sua roupa cara atravessando a sala de espera até chegar em frente a ele.
Os dois olham-se nos olhos.
Ela descobrindo. Ele reconhecendo.
Já dentro da sala, sentam-se em silêncio, frente-a-frente.
Ela pede, ele pede, que fale. Os dois riem da coincidente frase e ele começa.
Conta da saudade, da espera, do sofrimento, das alegrias, enfim, só fala dela e do que ela faz o tempo todo.
Coisas que ela nem lembra mais. Coisas que ela prefere esconder. Muitas e muitas coisas.
E com as memórias boiando na tona, ela ri, chora, envergonha-se, orgulha-se.
O corpo esquece de suar, de tremer. Ele a acalma tanto...
A serenidade faz todo sentido ali perto dele.
E depois de tudo exposto, ela pede perdão pela milésima vez.
Promete mudar a si e ao mundo. Quebrar diferenças, tabus, preconceitos.
Ele só sorri. Diante daquele desespero infantil ele acalma com aquela transparência cristalina, que só tem que não tem nada a esconder. Só os donos da verdade.
E ela se esforça pra que ele acredite que dali pra frente será tudo diferente. Que aquele encontro mudou tudo nela, essencialmente.
Mas ele sabe que não. Ele com os ombros pesados e doridos, sabe que ao despedir-se ela será tão sórdida, tão igual a todos os outros.
Mas ele a ama.
E naquele momento só ela importa.
Não quer perdê-la dali. Não quer perdê-la assim purificada, redimida, arrependida.
Resta pra ele duas opções.
Deixá-la ir e sofrer de novo a dor, a saudade, a ausência.
O esquecimento a encontrará na porta da sala. E a levará nos braços mais uma vez.
Ou findar tudo ali, já que os pratos estão limpos.
Resta pra ela uma escolha.
Então ele a fulminou com os olhos. E ela caiu sobre os ombros da poltrona.
Sem mudar o mundo, sem acabar com preconceitos e diferenças.
Não foi solidária, não entrou pra nenhuma Ong.
Não deu esmola, não fez caridade, nem doou órgãos.
Mas quando ela intencionou, ainda que por minutos, ser alguém melhor, ele aproveitou para salvá-la dela mesma.
Pra nunca mais errar.
Kamila V.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Bipolar.


Ela se achar superior é uma forma de mentir.
Uma forma de dizer pra ela (e só pra ela..) que não é um blefe...
Quando sabe que é.
Não é a toa que ela ri com aquele ar piedoso das besteiras alheias. Aquele riso é legenda pra "Pobre coitado..."
Ela é assim, uma farsa.
Finge que não liga o amor porque sabe que não pode controlá-lo. Aliás tudo que lhe foge do controle é descartado.
Prefere fazer tudo sozinha, porque jura que uma cabeça(a dela), funciona melhor que várias(outras)...
Ela é assim, por fora todas as respostas. Por dentro todas as perguntas.
Ela prefere dar à receber.
Porque ter é complicado demais e só quem tem pode perder.
Prefere dissimular à dar importância.
Só pra fazer aquela cara blasé que só tem quem já viveu de tudo um pouco, pra fingir que nada a surpreende.
O tênis no pé, segundo ela, é porcausa do conforto.
Mas eu sei que é porque ela não sabe andar de salto.
Ela é uma contradição por completo.
Ela não é, pra bem da verdade.
Quando bate a porta...se afasta do mundo, fica na tangente da vida.
Grita no silêncio: dor, amor e disparate.
É como se ali seus pensamentos, e dúvidas, e medos, esbarrassem uns nos outros procurando portas, janelas, frestas, saídas...
Ela é assim. Duas em uma.
E nem sabe qual quer ser.


Kamila V.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Droga de texto


Eu não escrevo por obrigação. Eu escrevo porque é um vício.
É um vício estranho, eu sei. Tem momentos que eu risco, risco e rasgo tudo.
Tem outros que surge aquela história..aquela que eu queria taaanto falar e não tem papel.
Tinha um bloco na bolsa.
Mas tava com dificuldade de encontrar coisas como carteira e telefone entre a papelada. Aí depois de muitas ligações perdidas (pelo tempo da procura do celular...) e sustos do tipo:" Caaara cadê minha carteira!!", eu resolvi tirar o bloco de lá porque ele tava ferrando com a minha vida.
Agora escrevo quando dá.
Mas a mente martelando toda hora, me encomoda.
Me encomoda o fato de não poder esvaziá-la.
De não pôr pra fora os pensamentos todos.
Não poder digerí-los, engorda minha cabeça.
Definitivamente, o papel é o meu metabolismo mental.
Mas escrever tem lá suas desvantagens...
Eu falei pra uma amiga, que se eu pudesse eu mudaria a forma de comunicação. Pra mim o ideal seria falar com bilhetes, cartas, rabiscos.
Depois das letras, me tornei um zero(nem à esquerda, nem à direita) em oratória.
O prazer de falar diminui proporcionalmente à quantidade de textos que escrevo.
Mas mesmo correndo o risco de emudecer, de acabar com as àrvores do planeta, de não atender ligações e de ficar sem dinheiro e documentos por minutos...
Mesmo que me peçam o favor de parar, que critiquem, ou que nem leiam...
Mesmo com todos esses mesmos, sinto...mas não consigo.
Acreditem, é por não conseguir, que não largo isso.
Assim como todo vício tem das suas alucinações, quando olho um papel em branco, surto com seus pedidos pra que eu escreva.
Talvez eu precise mesmo parar de escrever.
Talvez eu precise dar um tempo.
Amarrar as mãos e os pensamentos.
Atender ligações...





Alguém sabe aí uma clínica de reabilitação para escritores?

quarta-feira, 4 de junho de 2008

De corpo e alma (jovens de preferência...)




Ele me mostrou a identidade dele e disse:
-Olha minha filha, vê se não é de chorar?
Eu não respondi, por educação claro, mais pensei horrores do tiozão... Achei que fosse mais um daqueles querendo ser eternamente jovem.
Aí ele me contou que esses dias acordou, se olhou no espelho e chorou, por ver que estava velho ( eu continuei xingando ele em pensamento...) e só ter olhado pra ele e pra vida dele, tarde demais...(juro, parei de pensar merda na hora.)
Na identidade ele tinha 18 e um rosto bonito... E eu a partir daí me comovi profundamente, não por ele ter deixado a beleza passar junto com os anos, mas por ver que o fim é sempre o mesmo.
Que os anos, além de enrugarem sonhos e feições, passam a toda velocidade...sem dó.
E um enorme medo me envolveu. Dessa vez, um novo medo. Acolhido pela turma dos que já existiam em mim, me encurralou num corredor de portas fechadas. Então me vi assim, sem saída diante da fúria do tempo.
E a primeira vez que tive de medo de envelhecer foi quando ouvi as palavras daquele homem, que era jovem por dentro, mas tinha sido incapacitado de exercitar sua juventude pela casca da velhice. E como alguém que sofreu um feitiço, o moço dentro do corpo cansado explodia em saudades.
E o medo me calou por todo o depoimento fim-de-vida que tinha aquele homem.
Ele que acreditava ter apenas alguns poucos metros de caminho para andar, me deixava pedida entre os muitos quilômetros de atalho que me esperam nessa estrada louca que é meu destino.
Me deixava sem palavras, sem ações, diante daquela tristeza que fazia todo sentido.
O que fazer quando o corpo briga com a alma?
Que solução tem pra isso?
E eu apesar de todas as minhas manias idosas, sinto que vai chegar o dia em que botarei a alma pra lutar contra meu corpo velho.
E quando a vida gritar de dentro pra fora?
Como poderei olhar pro espelho sem chorar?
Eu que brigo tanto com sonhos. Espantando eles da minha mente como se espanta mosquitos que voam ao redor da cabeça, senti uma vontade(inha....) de resgatar antigos sonhos.
Alguns poucos que por livre e espontânea pressão tinha abandonado.
Senti vontade de dizer pra todo mundo que eu amo, Eu te amo.
E pra quem não amo, que os quero amar também.
Senti vontade de ligar pra antigos amigos, pra ver a quantas anda a vida...
Senti vontade de pedir perdão.
De mandar carta, não e-mail.
Senti vontade de escrever pra deixar documentado, que certa vez um homem me mostrou que não importa qual seja o fim, ele sempre é triste.
Que minha alma jovem só sobreviverá enquanto meu corpo for relativamente jovem.
E a morte dela tem dia marcado.
O dia do choro no espelho.
Kamila V.